Amor que não morre
Primeira versão.
Serão cinco versões do mesmo conto, sendo que,
cada um terá um foco diferente.
Aperte o play e boa leitura.
Somente quem tem a arte viva dentro de si é capaz de compreender a importância das diferentes tonalidades de cinza, preto e branco e, entre elas, entender o papel das cores vibrantes que aquecem e dão o toque final. Devemos lembrar que as cores neutras e frias são a base para as cores quentes. Elas podem ser o princípio de algo que virá a ser majestoso, belo e encantador. Uma sensibilidade necessária para interpretar o mundo à sua volta.
Era assim que Isabela absorvia o mundo. Seus olhos azuis, encantadoramente vivos e redondos, percebiam um mundo diferente em torno dela. Onde passava deixava um pouco da sua essência em forma de cores misturadas. Quem não tinha a sua sensibilidade diria que eram desenhos de uma criança levada. Como era simples e intenso esse processo.
Absorvia naturalmente as mais variadas frequências de luz. Mal sabiam que era para manterem vivas suas memórias mais profundas. Buscava transmitir ao mundo tudo que sentia através de suas mãos. Era preciso apenas pincéis, tintas, lápis coloridos, água e uma folha em branco. Quando faltavam folhas o mundo virava sua tela em branco. Pronta para receber seus toques. Assim o mundo ganhava novas formas, novas cores, novas oportunidades. Podia ali transformá-lo. Alcançar o inalcançável para os incrédulos. Uma criadora!
Com tantas tonalidades existentes dentro de si podia fazer com que acreditássemos no mundo. Que de alguma forma as coisas poderiam mudar, melhorar, ganhar novos contornos. Bastava olhar.
Vivia só num mundo externo, mas em seu interior era repleto de personagens diversos que outrora lhe encantaram. Eram personagens porque só existiam em sua memória, pois não mais lhes eram presentes. Partiram por não suportarem a sua dor. A dor de perder-se do mundo. Era doloroso ver a perda do controle. “Egoístas!”, ela pensava.
Para amenizar sua dor esforçava-se para colocar seus personagens para fora, principalmente aqueles que lhes eram caros. Queria colocá-los também em seu mundo externo. Queria poder olhar para eles com seus olhos azuis, e não com olhos de sua mente confusa.
Carregava consigo um mal que a confundia, no entanto, existiam dias que ela era tão forte que conseguia assumir o controle. Conseguia falar, e falar, e gritar para o mundo um pouco de sua dor. E logo, se perdia novamente. Quem dera meros mortais pudessem compreender a verdade que existia dentro de si, e não a loucura que lhe atribuíam.
Não sabiam que era capaz de transformar o mundo com o seu toque. Transformar aqueles que realmente queriam ver. Que queriam acreditar. Talvez porque suas almas eram tão inquietas como a dela. Mesmo que não tivessem um mal afligindo seus frágeis corpos, suas almas pareciam não suportar uma vida que não lhes permitia colorir o mundo.
Faltavam-lhes ações verdadeiras. Faltava-lhes a coragem de enfrentar opiniões. Faltava-lhes a verdade para extinguir as mentiras.
(...)
Em um momento de lucidez ela se deu conta que aqueles que eram transportados para o mundo através de suas trêmulas mãos, não ganhariam vida. Não poderiam preencher o vazio e a dor da ausência que somente suas presenças físicas poderiam completar. Sentia-se incompleta. Sentia-se agora incapaz de transformar o mundo, pois lhe foi tirado o mais importante: o amor. Assim acreditava. Não mais existia ali à sua volta. Ofereçam-lhe o que era mais difícil de suportar ao longo de uma existência: a solidão. Seus olhos podiam contemplar o temido abandono. Era real e não tinha controle sobre ele. Seria melhor não mais lutar para emergir a superfície de sua mente para ver o que ali acontecia. Era doloroso demais. Restava-lhe submergir para um lugar em que tudo eram cores.
Então, ela preferiu apenas viver em meios às muitas lembranças do passado. Navegando dentro de si mesma, em um lugar onde ainda existia tudo que ela um dia ofereceu de corpo e alma a aqueles que cruzaram seu caminho. Incluindo a filha de quem não mais se lembrava. Isabela escolheu viver as lembranças de tempos antes de sua filha nascer. Foi melhor, assim não sentiria a perda.
Seus olhos não mais brilhavam, pois ela já não estava mais ali. Eles se perderam em meio ao caos. Não era mais possível encontrá-la e fazê-la sorrir como antes. Não era mais possível ver a fusão seus lindos olhos azuis com o céu azul nos momentos em que o contemplava. As manhãs de sol não mais lhe faziam efeito, quando se fazia acreditar que o calor que tocava a pele era o abraço daqueles que um dia transportou para fora. Literal e subjetivamente.
Lá no fundo ainda há o amor que não morre. É tão forte que sobrevive. E tão belo que cega. É assim que espera o abraço da morte: com um leve sorriso marcado no rosto frágil. Agora, enfim, poderia viver eternamente em um lugar em que não existia dor, solidão e medo. Apenas o amor que sobrevive.
O conto acima foi uma forma de homenagear alguém que tocou
e transformou minha vida. Alguém que viveu o abandono e
adotou-me como sendo seu grande "amor".
Durante anos evitei escrever qualquer coisa que
trouxesse as características dela, pois ainda feria.
Mas hoje tenho certeza que os sintomas Alzheimer doía mais
nela que em mim.
Pra você, com carinho.

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