Amor que não morre - 2



Alguns dias da semana Clara levantava antes do sol nascer e sentava-se na praça sob o ipê branco. O perfume e o contraste das cores pela manhã inspirava-lhe. E era isso que ela buscava. O banco adornado de flores brancas, o sol nascendo, a brisa fria espalhando seus cabelos loiros pelo rosto. Sempre que voltava seus grandes olhos azuis para cima, eles fundiam-se com o azul do céu e, com dificuldade, rompia a fusão para acompanhar as flores caindo.

Em seu colo uma prancheta com folhas em branco e ao seu lado lápis de cores diversas. Precisava de algo para desenhar e experimentar as técnicas aprendidas no curso. Aspirava ser uma grande pintora. Espera um dia perder a conta da quantidade de assinatura de obras criadas por ela.

Era muito cedo e a praça estava praticamente vazia, exceto por um homem caminhando em sua direção, usando chapéu e terno escuro. A cabeça pendia para frente, os passos lentos, as vezes até parava. Registrou em mente a figura do homem de terno e cabeça baixa embaixo do ipê amarelo. A flor do inverno criava a aquarela ideal para criar suas fotografias mentais.

Antes que pudesse começar a rascunhar o homem já se aproximava. Este, com certa dificuldade ergueu a cabeça. Aquele momento, o momento, único em que você sente que algo não será como antes. Ele olhou e inclinou levemente a cabeça desconcertado. Não desviaram o olhar, e trocaram apenas um sorriso. Ele, como de costume, pôs a mão na borda do chapéu e puxou-o em forma de cumprimento e continuou em passos lentos. As vezes olhava para trás, o que deixava Clara desconcertada quando ele a pegava olhando.

As cores pouco a pouco foram dissipando-se e o cinza começou a dominar cena. Era comum ela viver essas memórias. E mesmo perdendo as cores ela não perdia o encanto da memória. Somente quem tem a arte viva dentro de si é capaz de compreender a importância das diferentes tonalidades de cinza, preto e branco e, entre elas, entender o papel das cores vibrantes que aquecem e dão o toque final. Lembrava que as cores neutras e frias são a base para as cores quentes. Elas podem ser o princípio de algo que virá a ser majestoso, belo e encantador. Uma sensibilidade necessária para interpretar o mundo à sua volta.

Era assim que Clara apreendia o mundo. Seus olhos azuis, encantadoramente vivos e redondos, percebiam um mundo diferente em torno dela. Onde quer que passasse deixava um pouco da sua essência em forma de cores misturadas. Hoje, quem não trazia a sua sensibilidade diria que eram desenhos de uma criança levada. Como era simples e intenso este processo.

Suas mãos estavam trêmulas. Sua mente confusa. Seus cabelos eram brancos. Seu vestido azul bem passado e solto ao longo do corpo. Estava debaixo da mangueira em postura que lembrava uma nobreza: a coluna ereta na medida do possível, joelhos juntos e com as pernas inclinadas para lado. Naquele momento não emitia nenhum som, mas sua voz como de um anjo era. Era firme e ao mesmo tempo graciosa. Ela encantava quem quer que lhe dedicasse alguns minutos, facilitada pela aparência tão frágil quanto de uma criança.

Clara olhou em volta e o cenário era diferente. Enfim um momento de lucidez. Houve tempo que implorava para ter um desses momentos, mas agora eram dolorosos. Perder-se do presente era o melhor presente que Deus poderia, ainda que momentâneo, oferecer a sua alma. Olhou em voltou e sentiu a tristeza invadir seu corpo. Sabia estar sozinha e não com o homem de chapéu que conhecera a tantos anos e viera a ser seu marido e pai de uma filha. Olhou suas mãos, talentosas mãos, o vestido azul, o gramado verde, a casa de pintura branca desbotada. Fechou os olhos para poder intensificar seus sentidos e quando abriu-os novamente com confiança e atenção.

Olhou rapidamente à sua volta, atenta ao contraste das cores, a luz, as sensações provocadas. Quem a via nesses momentos, parecendo desesperada, mal sabiam que era para manterem vivas suas memórias mais profundas. Ainda hoje buscava transmitir ao mundo tudo que sentia através de suas mãos. Era preciso apenas pincéis, tintas, lápis coloridos, água e uma folha em branco. Quando faltavam folhas o mundo virava sua tela em branco. Pronta para receber seus toques. Assim o mundo ganhava novas formas, novas cores, novas oportunidades. Podia ali transformá-lo. Alcançar o inalcançável para os incrédulos. Uma criadora!

Com tantas tonalidades existentes dentro de si podia fazer com que acreditássemos no mundo. Que de alguma forma as coisas poderiam mudar, melhorar, ganhar novos contornos. Bastava olhar.

Vivia só nesse mundo externo, mas em seu interior era repleto de personagens diversos que outrora lhe encantaram. Eram personagens porque só existiam em sua memória, pois não mais lhes eram presentes. Nenhum deles foram inventados. Partiram por não suportarem a sua dor. A dor de perder-se do mundo. Era doloroso ver a perda do controle. “Egoístas!”, ela pensava.

Para amenizar sua dor esforçava-se para colocar seus personagens para fora, principalmente aqueles que lhes eram caros. Queria colocá-los também em seu mundo externo. Queria poder olhar para eles com seus olhos azuis, e não com olhos de sua mente confusa.

Carregava consigo um mal que a confundia, no entanto, existiam dias que ela era tão forte que conseguia assumir o controle. Conseguia falar, e cantar, e gritar para o mundo um pouco de sua dor. E logo, se perdia novamente. Quem dera meros mortais pudessem compreender a verdade que existia dentro de si, e não a loucura que lhe atribuíam.

Não sabiam que era capaz de transformar o mundo com o seu toque. Transformar aqueles que realmente queriam ver. Que queriam acreditar. Talvez porque suas almas eram tão inquietas como a dela. Mesmo que não tivessem um mal afligindo seus frágeis corpos, suas almas pareciam não suportar uma vida que não lhes permitia colorir o mundo.

Faltavam-lhes ações verdadeiras. Faltava-lhes a coragem de enfrentar opiniões. Faltava-lhes a verdade para extinguir as mentiras.

O tempo passou e em um dos poucos momentos de lucidez ela se deu conta que aqueles que eram transportados para o mundo através de suas trêmulas mãos, não mais ganhariam vida. Não poderiam preencher, nem mesmo temporariamente, o vazio e a dor da ausência que somente suas presenças físicas seriam capazes de completar. Sentia-se agora incapaz de transformar o mundo, pois lhe foi tirado o mais importante: o amor. Assim acreditava. Não mais existia ali à sua volta. Ofereçam-lhe o que era mais difícil de suportar ao longo de uma existência: a solidão. Seus olhos podiam contemplar o temido abandono. Era real e não tinha controle sobre ele. Seria melhor não mais lutar para emergir a superfície de sua mente para ver o que ali acontecia. Era doloroso demais. Restava-lhe submergir para um lugar em que tudo eram cores.

Então, ela preferiu apenas viver em meios às muitas lembranças do passado. Navegando dentro de si mesma, em um lugar onde ainda existia tudo que ela um dia ofereceu de corpo e alma a aqueles que cruzaram seu caminho. Incluindo a filha de quem não mais se lembrava. Clara escolheu viver as lembranças de tempos antes de sua filha nascer. Foi melhor, assim não sentiria o abandono, assim não lembraria que fora abandonada.

Seus olhos não mais brilhavam, pois ela já não estava mais ali. Eles se perderam em meio ao caos. Não era mais possível encontrá-la e fazê-la sorrir como antes. Não era mais possível ver a fusão seus lindos olhos com o céu azul nos momentos em que o contemplava. As manhãs de sol não mais lhe faziam efeito, quando se fazia acreditar que o calor que tocava a pele era o abraço daqueles que um dia transportou para fora. Literal e subjetivamente.

Ela não sabia, mas seu corpo fora consumido por um mal conhecido estranhamento como Alzheimer. Mesmo não se lembrando do motivo lá no fundo ainda há o amor que não morre. É tão forte que sobrevive. E tão belo que cega. É assim que espera o abraço da morte: com um leve sorriso marcado no rosto frágil, que tinha com resultado o recuperar de mais uma das telas mentais registradas anos antes.

Agora, enfim, poderia viver em um lugar em que não existia dor, solidão e medo. Caminhava pela praia, ouvindo as gaivotas, sentindo o vento frio e salgado empurrando-a cada vez mais rápido. E foi assim, fechando-se para o mundo que recebeu o abraço. O abraço temido para alguns e extremamente desejado por outros. O corpo pode enfim descansar, exaurido, libertando sua alma para mais uma viagem. Agora sem limites da memória, podia novamente criar.

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