Nem só de sofrimento viverá o homem



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"A dor acostumada não se sente."
(Luís Vaz de Camões)

Sua vida vai de mal a pior? Vive em depressão? Sente-se triste por qualquer coisa? Vive reclamando porque as coisas não vão bem?  Os relacionamentos são um desastre? E não consegue realizar nada profissionalmente? Pensa em suicídio? Veja bem, creio ter a solução para os seus problemas: vá ao hospital.
Sente-se na entrada do “pronto-atendimento” e observe tudo que acontecerá nas horas seguintes. Um dia é suficiente para ver tudo que precisa.  Se possível, vá para dentro de uma das alas de atendimentos e apenas sinta a dor. E aprenda a discernir pela prática, a dor(curta) do sofrimento (longo). Mas devo alertar desde já: sua vida nunca mais será a mesma.
Direi desde já uma coisa: nem só de sofrimento viverá o homem. Foi essa a minha conclusão ao deixar esse lugar.  Estamos habituados a ver apenas o que passamos e esquemos do compartilhar. Assim como a Terra gira em torno de si mesma, em movimentos unicamente circulares, também fazemos com que o nosso mundo gire apenas em torno de nós mesmos. A força centrífuga resultante desse movimento faz com que as nossas próprias emoções fiquem a flor da pele, tornando tudo desastrosamente grande e imprevisível.
Dizem que vivemos imersos em emoções, ou seriam elas imersas em nós? O que sentimos quando algo desastroso acontece com pessoas que não conhecemos, mas que sabemos fazer parte de nós de alguma forma, como quando ocorrem grandes catástrofes matando milhares? Você sabe o que está acontecendo com o seu vizinho? Ah, não, o vizinho não está ao alcance, mas o seu amigo sim. Você pergunta sobre sua vida, ou quando ele lhe conta algum problema, você busca “explorar” um pouco mais a fim de ajudá-lo?
Estamos tão habituados a ver tanto o sofrimento nas ruas, em filmes, nos noticiários, tornando-nos insensíveis a esses turbilhões de acontecimentos. Não mais nos importamos com o que as pessoas estão passando, e vivemos imersos apenas dentro de nós mesmos. Seria egocentrismo ou apenas as emoções dominando o mundo? Creio que o nosso planeta saiba a resposta, uma vez que ele está agindo de forma tão estranhamente calculada, como quando assistimos a grandes tragédias, forçando-nos a mudar conceitos ao gerar  dor, e logo, sofrimento. Alguns podem pensar que não se trata de insensibilidade, mas sim de estarmos sendo um pouco mais racionais. Eis que lhe pergunto: estamos sendo racionais?
Como diz Simone Weil, "a dor é a origem do conhecimento". A dor nos impulsiona a querer mudar, a buscar novas formas de viver e, desta forma, aliviá-la e curá-la.  Devemos ficar atentos e não permitir que essa dor transforme-se em sofrimento, ou estaremos nos cegando(insensibilidade), e assim, deixando de ser uma motivação para a mudança. Portando, passe a vê-la com outros olhos. Sinta-a(dor) como uma oportunidade de mudança, e não permitamos que essa "dom" seja perdido, assim como tantos outros. Caso isso não ocorra, qual seria o próximo passo? Qual será a próxima religião dizendo poder trazer alívio para o sofrimento alheio, se a própria religião precisa de cura? Qual será o próximo motivo para uma guerra, para uma bala ser disparada, para uma promessa? Qual será o nosso próximo sofrimento, ou o nosso próprio tiro no pé?

“Nem só de pão viverá o homem”, mas, também, nem só de sofrimento viverá esse homem. Um único olhar amplificado pode cessar tanta dor, e mudar definitivamente as velhas e enferrujadas ideologias. Ou nos restará viver entorpecidos como punição por termos permitido a insensibilidade diante tantas atrocidades humanas. Que seja a razão a nossa estrela guia, uma vez que, o coração pode estar confuso e não ser mais confiável.

Comentários

Unknown disse…
eitaa! vc ta ficando bom nisso! hahaa. Goste de ver! :)

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